Tempo

Acordo às seis horas da manhã e o sol já nasceu, pois sempre há alguém que acordou mais cedo que eu. Levanto da cama antes que meu sono fale mais alto que minhas obrigações diárias e minhas pálpebras percebam que não descansaram o suficiente. Arrumo à cama como se estivesse no automático, como se a cama arrumada refletisse em minha vida bagunçada. E o tempo passa.

Coloco o café na cafeteira, os pães na torradeira e lavo meu rosto com água da torneira. Tudo está meio escuro na minha casa. Penso que preciso abrir às portas da minha vida e começo pela janela do meu apartamento. Olho pela janela. Na rua às pessoas passam rápido, com pressa para muitas coisas, enquanto eu só tenho pressa de viver, sem perceber que estou vivendo naquele exato momento. E o tempo passa.

Muitas coisas poderiam acontecer naquele instante. Olho para as arvores e para as pessoas que vão mas nunca voltam. O asfalto parece quente naquele dia de verão e os carros buzinam como quem pensa que ser o primeiro a chegar é a coisa mais importante de suas vidas. Afinal, trabalho é trabalho. E o tempo passa.

Naquela hora da manha, quando abro a janela, o sol vem contra o meu rosto e me envolve, tornando às coisas mais claras, mais quentes e mais belas. Aquela janela é como meus olhos abrindo de manhã e se despedindo da escuridão das noites solitárias. Diante daquela cena de todas as manhãs, penso naquilo que tenho que fazer naquele dia, nas coisas que vem a minha mente vez ou outra e das idéias que se passam dentro de mim. O tempo passa e aquilo é o mais fora da rotina que eu tenho. Só os meus pensamentos mudam todos os dias, horas e momentos. E o tempo passa.

Imagino as mais improváveis coisas que poderiam acontecer enquanto espero minha cafeteira da o sinal de que meu café está pronto, meus pães se tornarem torradas e chegar a hora de voltar à realidade. Antes que isso aconteça, alguém passa naquela rua e rouba meu olhar só para si. E nos poucos minutos que passa diante do meu olhar, agradeço ao sol por tornar aquela cena mais clara para os meus olhos e esqueço do café, das torradas, dos pensamentos e idéias, fico procurando em minha mente apenas um motivo para falar com ele, porque sei que naquela rua as pessoas passam e jamais ficam ou voltam. E o tempo passa.

Não consigo pensar em nada, apenas saio até a rua o mais rápido que consigo. E ele, com a pressa que estava, esbarra numa pessoa na qual não notei nenhum detalhe, mas a agradeci mentalmente enquanto o ajudava a apanhar suas coisas. Ele me olhou como se fosse a coisa mais estranha que lhe acontecerá e eu percebi que ainda estava com as roupas de dormir. Ele, de mãos macias e olhos castanhos claros que combinavam com sua timidez, me olhou, segurou minha mão e disse obrigado olhando nos meus olhos. E o tempo passou. Infelizmente.

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