Ana e Pedro

Era sábado à noite. E as pessoas se reuniam para festejar. Pedro buscou os pães, o peixe, o vinho, e não satisfeito depois do alimento, comeu e bebeu de novo e de novo. Seu mestre havia o encontrado bêbado na semana passada, e havia lhe orientado sobre o mau uso da embriaguez, mas Pedro se esqueceu do conselho e seguiu para o Norte em busca de prostitutas que suprisse o seu desejo carnal. Ana, que havia esperado Pedro por um dia inteiro, cansou-se da espera e resolveu iniciar seus ritos em busca de energias. Apressou-se em preparar um altar, acendeu seu incenso e velas, olhou para o seu espelho, fechou os olhos e pediu para as forças lhe ajudarem. “Mostre-me o caminho, me guiem para a verdade, me ajudem”, falou Ana para as forças vitais. Sentiu a energia que os anjos buscavam para ela. E, olhando para o espelho, pediu que ele lhe mostrasse Pedro. E o espelho mostrou uma mulher de cabelos pretos, aspecto sério, a mulher estava nua, e Pedro a sua frente, permanecia apenas observando-a. O coração de Ana bateu mais forte, não queria acreditar naquilo, não conseguia ver mais que aquilo e não sabia se Pedro havia tocado naquela mulher. Mas confiara em seu espelho, confiara na força que te ajudou e nos ritos espirituais que a tornaram mais forte para conseguir ver o que não podia ser visto. Então, voltou a ouvir seu anjo e preparou uma porção.

Mais tarde, Pedro chega a casa, cabisbaixo, com o olhar para o chão. Ana o espera sentado na cama que a ambos pertence. Pedro senta ao seu lado. Sentados lado a lado, mas com uma distancia não comum, eles quase não se olhavam, parecem vigiados um pelo outro, como se o olhar que contemplam um ao outro fosse o mesmo que revelasse os segredos que eles escondiam. Ana bebe uma de suas porções, em busca de calma, suas pálpebras inchadas, mas o olhar calmo. Pedro a olhava e virava seu olhar rapidamente, com a certeza de que Ana conhece seus olhos como conhece a palma de sua mão. Ele estava apreensivo, conhecia os dons de sua mulher e, naquele momento, talvez ela já soubesse, mas a coragem que lhe guiou até a casa das prostitutas não funcionará quando Ana o olhava daquela forma. O pé direito de Pedro batia no chão sem parar, segurava um travesseiro como proteção. Ele sabia que o amor era mais forte que todos os outros sentimentos que conhecia. A coragem que tinha naturalmente não era nem de longe algo próximo com o amor que sentia por Ana, portanto, o medo de perdê-la tomava conta de seus pensamentos, e suas energias se concentravam nesse único sentimento. Ele começava a ficar tonto e perceberá que sua embriaguez não havia acabado e nem mesmo ela te encorajava mais. Ana esperava o momento certo para conversar com Pedro. Decepcionada, não conseguia seguir adiante, simplesmente levantar daquela cama para tomar um banho e voltar para dormir, não conseguia sair de perto de Pedro, o seu amor por ele era mais forte que a decepção, mas o orgulho não a deixava em paz. Queria olhar nos olhos de Pedro e pedir para ele contar, porque não aguentava mais aquele silêncio e, por um momento, arrependeu-se de perguntar por ele, arrependeu-se da confiança que sempre dava para o amor.  Mas sabia que aquilo era coisa de momento. Sentia cheiro de bebida nas roupas de dele. O corpo estava liberando álcool e sabia que naquele momento ele ainda estava embriagado.

O quarto era invadido pela energia que vinha dos dois. Sentimentos ruins. Havia um peso no ar, que tornava tudo mais denso. Qualquer palavra proferida naquele momento liberaria uma energia muito maior. E o silêncio parecia o melhor caminho. Cansado daquilo, Pedro aproximou-se dela e tocou sua mão devagar, ainda sentia medo. Ela o olhou nos olhos e ele começou a chorar, deitou a cabeça nas pernas de sua amada, que acariciava seus cabelos negros enquanto respirava profundamente. Ela não sentia ódio, nem rancor, apenas tinha a imagem na sua mente e tentava não lembrar mais dela. Levantou a cabeça dele do seu colo e beijou seus lábios, para que ele ficasse mais tranquilo. Olharam nos olhos um do outro, agora que se tocavam e se olhavam tudo parecia mais tranquilo. Agora, finalmente, se olhavam incansavelmente e se comunicavam através daquele olhar. Nos olhos dele: vergonha, arrependimento e, principalmente, medo. Nos olhos dela: decepção.

Permaneceram se olhando por um tempo, até que Pedro já entendia que o amor de Ana era mais forte que a decepção em seus olhos. Passou a contemplar os olhos dela. Ana sorriu para ele, com a boca e com os olhos. Pois percebia o que ele havia notado. As energias do ar não pareciam mais tão pesadas. Eles podiam sentir aquilo. Ana e Pedro sabiam que o ar continuava o mesmo, mas o perdão os tornava mais leves.

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