Os mistérios que caminham com a lua

Sexta-feira, 13 de abril.

Era noite, o vento frio não me fez ficar em casa naquela sexta-feira, afinal, eu tinha um compromisso que mudaria minha caminhada espiritual. Fui de encontro a minha sacerdotisa perto de um parque municipal que abria para acampamentos, lá encontrei um grupo de dez mulheres em jornada pela tradição da lua.

“Me acompanhem!”. Disse minha sacerdotisa.

Caminhamos até a entrada do parque juntas, sem nem mesmo uma apresentação. E em meio à natureza, onde seguia minha sacerdotisa em uma trilha, todas refletiam consigo mesmas. Eu, tentava fazer o mesmo, permanecia em silêncio e deixava meus pensamentos livres, sempre respirando fundo aquele ar, o cheiro da terra e das plantas me trazia paz. Todas tinham um motivo pessoal de estar ali e quase nenhuma se conhecia fora do grupo. Mas todas nós compartilhavamos do objetivo de conhecer a si mesma melhor. De repente, senti um aperto em meu peito ao caminhar, cada passo que eu dava me fazia sentir que não devia seguir com o caminho. Minhas pernas pesavam e uma ansiedade tomou conta de mim. Eu parei. Coloquei minha mão em uma árvore grande, pelo escuro que estava não pude nem mesmo reconhecer de qual árvore se tratava, mas conseguia ver à sombra que ela faria durante o dia pela luz da lua cheia, que brilhava no céu e iluminava nossa caminhada até o coração daquela floresta. Notei que ninguém havia percebido minha falta, então simplesmente sentei, não falei nada, era uma missão importante para todos nós. E se eu falhasse, poderia decepcionar minha mestre e atrapalhar todas aquelas mulheres. E o pior de tudo seria não conseguir dá aquele passo junto com meu grupo, dessa forma ficaria para trás, decepcionando a mim mesma. O grupo seguia trilha rápido, de forma que perdi todas elas de vista em pouco tempo. Bebi um pouco da água que levei em uma pequena garrafa, abri à mochila e verifiquei erva por erva que havia levado. Talvez fosse ansiedade. Que erva eu poderia usar para ansiedade? Como eu poderia esquecer isso no momento? Havia um branco na minha mente e comecei a ficar tonta. Já estava arrependida por não ter falado com ninguém, agora estava sozinha e nem mesmo sabia se voltariam pela mesma trilha.

A floresta parecia silenciosa demais, a não ser pelo vento que carregava folhas e balançava às árvores. Abri à mochila e procurei, já desesperada, meu diário. Passei página por página procurando o que poderia me ajudar, em busca de uma resposta que, naquele momento, só poderia buscar em minha mente ou naquelas páginas. Estava sozinha sem minha ninguém para consultar e, obviamente, sem internet. Preciso meditar! Lembrei dos exercícios de respiração que sempre me deixaram mais calma. Minha lanterna descarregou! Meditar naquele momento com certeza me deixaria melhor e me guiaria, mas um medo tomou conta de mim e com a tontura que estava sentindo, era capaz de deitar e somente dormir, sem fogo por perto e sozinha, isso seria muito perigoso. Também precisei sair debaixo daquela árvore, muitas folhas poderiam guardar perigos escondidos no chão. Lembrei da orientação de meu antigo mestre, sobre os acompanhamentos durante às trilhas.

Caminhei até a parte iluminada e quando avistei a lua cheia no céu, inevitávelmente questionei: Como aquilo poderia estar acontecendo? Talvez fosse uma oportunidade. Então sentei em uma pedra grande perto do caminho pelo qual a trilha havia seguido e conversei com à lua, pedi sua orientação se eu precisasse passar a noite ali ou caminhar de volta até a cidade, para que nada de mal me acontecesse. Então, tirei o alecrim de minha mochila e procurei um lugar onde eu pudesse meditar. Quando olhei para a árvore novamente, vi que algo perto dela refletia o brilho da lua. Havia um monte de folhas ao lado da árvore, e estava escondido por entre aquelas folhas. Com cuidado me aproximei para ver o que era. Afastei as folhas com um galho e encontrei uma garrafa de vidro, com um papel dentro. Será que eu poderia ver aquilo? Pensei. De uma coisa eu sabia, se eu não abrisse, nunca iria saber o que seria e viveria com o mistério em minha mente para sempre, se eu abrisse e fosse ruim, não poderia voltar atrás.

Não demorei muito e peguei a garrafa do chão. Levei até a pedra. Sentei e suspirei, a tontura havia finalmente passado. Então tirei o papel, mas não havia nada escrito. Por dentro do papel havia uma caneta. Eu deveria escrever? Parecia muito sugestivo a isso, só não sabia se era algo para mim. Coloquei tudo na garrafa de volta. Sentei no chão plano ao lado da pedra, acendi uma vela de forma que a pedra conseguisse proteger o fogo do vento forte de lua cheia. Usando o alecrim, fiz um círculo em volta de mim e, sentada, com à coluna ereta, minhas mãos apoiadas em meu joelho, fechei meus olhos e prestei atenção em minha respiração. Enquanto respirava fundo, a imagem da lua cheia permanecia em minha mente. Quanto mais eu prestava atenção em minha respiração, mais minha mente ficava limpa e eu poderia relaxar todas às partes do meu corpo.

Tive uma visão que na minha memória não ficou clara se era real ou não, mas no meu entendimento, eu sonhei com tudo aquilo. Uma mulher de cabelos ruivos vinha de um caminho por trás da árvore onde parei, ela caminhou em minha direção e eu, paralisada, não sai da minha posição de meditação, então ela me chamou pelo nome de Iris, o primeiro nome que minha mãe escolheu antes de meu pai fazer com que ela mudasse de opinião, ela disse que havia um recado para mim, então pegou a garrafa e tirou o papel, a caneta e escreveu, depois beijou a minha testa e saiu, não sei se estava realmente acordada, mas pude sentir esse beijo e tudo era muito real. Ela correu até o lugar de onde vinha e sumiu na escuridão, eu peguei a garrafa, no papel estava escrito: “Eu sou sua vó e estou aqui para te convidar a se encontrar consigo mesma e verdadeiramente se reconhecer. Pois somente dessa forma poderá ter amor por sí mesma. Eu estarei ao seu lado. Quando olhar para a lua no céu, lembre-se de mim pois estamos juntas. Se aceitar meu convite, vamos trilhar o caminho da sua evolução e eu entenderei que seu desejo é verdadeiro.”.

Guardei o papel novamente na garrafa e coloquei no chão. É tudo que lembro até o sol nascer em meu rosto. Eu estava deitada, havia dormido depois de meditar e não lembro quando deitei. Então peguei meu diário e escrevi tudo o lembrava. Pouco tempo depois, ouvi às mulheres me chamando e vi que elas voltavam da trilha. Uma delas me viu e correu até onde eu estava. “Lisa! Você está bem?” Segurou em meu braço. “Sim. Obrigada!”. Levantei e vi meu grupo se aproximar, procurei minha sacerdotisa e vi o olhar dela, não demonstrava decepção e não consegui captar seu sentimento ao me ver. Mas vi um sorriso escapar de seus lábios. Todas ficaram em volta de mim perguntando o que havia acontecido. Então contei como foi tudo, mas não falei sobre a visão, decidi que guardaria isso para mim até que sentisse que voltei de um mergulho em meu interior. Minha sacerdotisa falou olhando para todas, que se organizaram em círculo ao ouvi-la: “Não tenham medo de estar na floresta! Lisa está viva porque a floresta e a lua a protegiam. Mas a nossa mente pode estragar as melhores oportunidades de encontros e desencontros. Um dia vocês terão que saber caminhar a sós na noite e precisam se preparar, pode ser a qualquer momento. Hoje foi o seu momento, minha filha!”, pôs o braço em volta do meu ombro e me olhou, “Parece que você se saiu bem!”

Saindo de perto de mim e olhando para o círculo de mulheres formado ali, ela disse para todas:

“Vamos voltar para à cidade!”

Depois de alguns passos cheguei mais perto dela e perguntei:

“Não sentiu minha falta?”

Ela não olhou para mim, mas respondeu:

“Vi quando parou e se sentou na árvore”. Havia um sorriso em seu rosto. E eu, surpresa com o que ela havia feito de propósito, falei:

“Então por que não fez nada?”

“Vi que você fez a escolha de não pedir ajuda, então senti que não era necessário te ajudar. Não posso interferir no livre arbítrio. Cada uma de vocês podem sentir seu momento de encontro com à floresta. Se estivesse acontecendo com você, eu poderia ser um bom motivo para você ir de encontro ao seu medo.” Caminhavamos lado a lado, e eu estava com muitas questões em minha cabeça. Queria perguntar para ela se eu tivesse correndo perigo, questionar sua forma de tratar à situação. Porém, via muito sentido no que ela falou, principalmente pelo que aconteceu e pelo medo que eu tive que superar sozinha.

Imagem disponível em: https://www.vampir.com.br/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s