Amizade colorida

— Quando ela saiu da piscina, pensei que não iria suportar ficar ali fingindo não querer beija-la. Mas talvez eu não queira algo a mais com ela, entende?

Disse Gabriel enquanto ajudava Larissa a escolher seu vestido para o baile. Ela, segurando um vestido vermelho e outro azul, que cobriam suas pernas tonificadas e bronzeadas com as quais Gabriel sonhava a muito tempo, não sentia nada quando ele falava de outras garotas. Ele, esperando qualquer sinal de ciúmes de sua amiga, sempre tocava em tais assuntos.

— Eai, qual desses fica melhor?

Gabriel olhou aquela mulher como se não a conhecesse, aquela por quem havia se apaixonada conseguia ficar ainda mais atraente dentro daquele longo vestido vermelho. Ele a via com outros olhos e o receio tomava conta de seus pensamentos. Se sentiu constrangido por falar de outra garota, mas sabia que Larissa nunca se interessaria por ele. Apesar de ter uma queda por ela, não poderia falar nada. Eles eram apenas amigos.

— Diz logo o que você achou, ainda vamos comprar sua roupa. Interrompeu os pensamentos.

— Você está perfeita!

— Você viu o outro? Não consigo decidir.

Naquele momento, Gabriel quase não prestava atenção ao que Larissa dizia. Enquanto ouvia sua voz, um longo flashback passava em sua mente. Aquela mulher linda e companheira é a única com quem ele já quis algo além de beijar. Sua melhor amiga. Aquela que faz a verdadeira falta quando não está por perto. Tudo passava a fazer mais sentido para ele. Ele precisava convida-la para o baile de formatura.

— O vermelho é o mais bonito.

— Ótimo, agora é sua vez!

Larissa foi até o caixa, pagou o vestido. Ela confiava muito na opinião do amigo. Enquanto isso, ele já havia escolhido o terno. Um básico preto, camisa branca, sem gravata. Olhava no espelho para garantir que os sapatos combinavam com o restante da roupa.

— Você nem mesmo pede minha opinião, né? Brincou Larissa.

Depois de pagar, os dois saíram da loja apressados para tomar um café antes da próxima aula. Larissa não parava de falar na festa. E Gabriel só pensava em uma coisa: como convidar sua amiga para o baile.

Era estranho chamar sua melhor amiga para dançar. Convidar para o baile tinha um significado diferente de amizade. E qual seria a reação de sua amiga ao saber que essa era a intensão. Como ele passaria a tratar sua melhor amiga como as outras garotas. Ela saberia desde o início. Como sempre sabe como ele age com as garotas.

— Vamos sentar nessa mesa? Gabriel falou depois de permanecer calado todo o caminho.

— Pensei que iriamos comprar para viagem. Está muito perto da próxima aula.

— Por favor, podemos nos atrasar um pouco?

— A gente já vai se atrasar um pouco. Interrompeu Larissa.

— Sente logo aí. Fingiu autoridade, tentando descontrair.

O café chegou e o silencio permaneceu junto com um clima estranho.

— Algum problema com você? Larissa quebrou o silencio.

Não. Na verdade, queria te convidar para ir ao baile comigo. Tomou coragem e falou enquanto segurava a mão de Larissa. Eu entendo caso esteja de olho em outra pessoa ou esperando um convite.

— CLARO! Claro que eu quero. Larissa interrompeu.

Daquele momento adiante, Gabriel era todo sorrisos, assistiu a aula, mas com o pensamento longe. A pouco tempo percebeu que o que sentia por sua amiga era muito mais que amizade. E tinha a oportunidade de fazer as coisas de uma forma diferente com Larissa. Da melhor forma que ele encontrasse. O baile daria a oportunidade dele se declarar de uma forma especial.

DIA DO BAILE

“Que horas te pego?”, digitou em seu celular. Te pego? Assim espero! Pensou consigo mesmo.

“hummm, vai ser o motorista da rodada? Como vai vir me pegar?”, Larissa respondeu.

“Consegui o carro com meu pai. Hoje não temos hora para voltar. Animada?”

“Muito. Pode me buscar às 22h. Não precisamos ser os primeiros a chegar, mas vamos chegar a tempo de aparecer nas fotos.”

“Claro, pode deixar. Até mais.”

O dia passou devagar para ambos. Gabriel tirava os poucos fios em seu rosto e corpo, Larissa escolhia a maquiagem perfeita, preparava unhas e cabelo.

Terminar o ensino médio era um momento muito especial. Um divisor de águas. Larissa não fazia ideia das intenções de seu amigo, mas estava com muito medo de não receber nenhum convite.

Quando a noite chegou, os dois se arrumavam como nunca. Gabriel, que ficou pronto primeiro, ensaiava no espelho aquilo que pretendia falar. Não queria deixar que sua amiga fosse para faculdade sem saber de seus sentimentos.

Exatamente às 22h, Gabriel saiu de casa. Chegou a casa de Larissa, tocou a campainha e esperou, nervoso como nunca. Quando ela saiu, sentiu seu coração bater mais forte. A menina que ele conhecia desde a infância, agora era uma mulher e ele se apaixonou por sua transformação. Tudo nela era lindo. Seu cabelo liso, com ondas nas pontas estava solto, o tom de castanho claro era iluminado pela luz da sala. Seu vestido vermelho contrastava sua pele clara, os sapatos ficavam escondidos pela barra do vestido longo, mas dava para ver seus dedinhos saindo da sandália. Não falou uma só palavra enquanto contemplava aquela mulher.

— Estamos felizes que Larissa vai ao baile com você, filho. É bom sabe que ela está com alguém que confiamos. Disse o pai de Larissa enquanto apertava a mão de Gabriel.

— Posso tirar uma foto de vocês antes de irem? A mãe de Larissa já estava tirando fotos quando falou.

Gabriel se aproximou de sua amiga, colocou em seu braço a pulseira de flores que havia escolhido e sorriu para a câmera.

— Vamos? Falou olhando em seus olhos.

Larissa pôde perceber aquele olhar diferente. Mas afinal seu amigo nunca a tinha visto daquela forma. E ela tinha razão, ele estava encantado. Mas já fazia muito tempo.

— Você está linda! Gabriel falou enquanto abria a porta do carro para ela.

— Obrigada, cavalheiro! Sorriu enquanto entrava no carro.

— Aperte os cintos, gata. É hora da festa! Brincou Gabriel.

Chegaram ao baile, assinaram uma lista que seria arquivada na escola e nunca mais seria lida e tiraram fotos da todas as formas. Depois de encontrarem alguns amigos, sentaram em uma mesa com várias pessoas. E Gabriel precisava da desculpa certa para ficar sozinho com ela. Então, tomou coragem para convidá-la para dançar a próxima valsa. Não imaginava que ela aceitaria, mas como foi o que aconteceu, ela estava disposto a aproveitar cada segundo para contar os seus sentimentos. Dançaram coladinhos. E Gabriel finalmente tocou no assunto.

— Está de olho em alguém essa noite?

— Não. Ela sorriu. Você está?

— Estou.

— E o que está fazendo aqui, então? Tá perdendo tempo. Ela soltou seu pescoço.

— Na verdade, eu não estou perdendo tempo.

— Espertinho, é algum tipo de estratégia. Não é toda garota que gosta de sentir ciúmes. Ok?

— Você gosta de sentir ciúmes? Gabriel olhou em seus olhos retomando o ar sério que queria da aquela conversa.

Parece que ela havia entendido. — Não gosto!

— Então estou no lugar certo. Ele confirmou.

Dançaram aquela musica até o fim, sem falar mais nenhuma palavra. Mas os pensamentos de Larissa não paravam. Será que havia entendido certo? Não queria perguntar aquilo. Quando a música acabou, Gabriel convidou para ir a um lugar menos barulhento. E ela teve certeza de que era aquilo que imaginou. Decidiu se deixar levar e acompanhou quem até então era seu amigo.

Caminharam até a parte de fora do salão de festas, quando pararam, Gabriel segurou a mão dela e olhou em seus olhos.

— Bom, não sei você já reparou antes, mas eu passei a sentir algo a mais por você. Algo além da nossa amizade, não sei quando isso surgiu, muito menos como. Mas conhecendo você como eu conheço, é difícil não se apaixonar. Eu falei de outras garotas para você, mas isso nunca despertou ciúmes e sei que não sente o mesmo por mim. Mas eu precisava te contar. Não seria justo esconder isso da minha melhor amiga. se eu tiver a chance de te mostrar eu faria o possível para te fazer feliz. Quando pensei em quem levar ao baile, você era a única pessoa que queria e não parei de pensar nesse momento.

— Primeiro, você já me faz feliz! Mas não estava preparada para isso. Realmente nunca percebi nada e te vejo apenas como amigo desde que me entendo por gente. Sei que você seria ótimo para mim, como já é. Mas tenho medo que isso estrague nossa amizade para sempre.

— Eu não quero ser apenas seu amigo a muito tempo.

— Eu estou muito surpresa. Não sei o que dizer.

— Você tem o tempo que precisar para pensar no assunto. Pode ficar tranquila. Eu vou respeitar sua decisão. E seja qual for, não vou sair da sua vida. Não será fácil se livrar de mim.

Larissa sorriu e os dois se abraçaram. E pela primeira vez, ela olhou nos olhos de seu amigo, imaginando beijar aquela boca. Um clima diferente cresceu dentro daquele abraço. A paixão invade quando menos esperamos e podia destruir aquela amizade. Mas o amor, ele pede permissão para ficar apenas dentro daqueles que o alimentam. Amantes e amigos era a combinação perfeita para duas pessoas que se amam de verdade. É o que torna duas pessoas realmente próximas, companheiras além de qualquer atração. Eles não sabiam como seria daqui para frente. Mas, o primeiro passo havia sido dado e independentemente da decisão de Larissa, tudo entre eles já havia mudado. Não tinha mais volta.

— Vamos entrar! Larissa interrompeu.

Durante a noite, ela dançou o tempo inteiro, rejeitou todos os caras que chegaram nela, tentou mudar o foco de seus pensamentos, mas o tempo todo pensava nos riscos que ela gostaria de correr. Ao olhar Gabriel distante, se imaginava não somente o acompanhando como sempre, caminhando lado a lado como todo o ensino médio, mas de mãos dadas. E procurou em suas lembranças alguém para ocupar aquele espaço, alguém que não fosse seu amigo. Procurou e não encontrei, porque não havia ninguém. Larissa nunca havia se apaixonado por outro garoto, muito menos imaginava qualquer daqueles caras ao seu lado, segurando sua mão.

— Preciso ir! Saiu rapidamente do ciclo de pessoas que haviam se reunido no meio do salão de dança.

— Ela estava estranha, não? — Alguém comentou na mesa. — Talvez Gabriel finalmente tenha se declarado para ela. Todos já perceberam.

— GABRIEL! — Ele estava saindo do local da festa, em direção ao carro. — Aonde está indo?

— Apenas dá uma volta, não estou me sentindo a vontade, então iria apenas pensar sem essa música alta ou varias pessoas com as quais precisamos fingir que estamos felizes. Me entende?

— Eu sempre te entendo. — Ela deu um sorriso. — Posso ir junto?

— Por favor! Falou enquanto abria a porta do carro para ela.

No caminho, um longo silêncio.

Depois de alguns minutos apenas passando pelas ruas sem destino algum. Larissa falou:

— Deveríamos fazer algo muito estupido.

— O que sugere?

— Não sei, talvez pichar a parede da escola ou estragar nossa amizade. Que tal?

Gabriel encostou o carro.

— Já que não temos tinta…

— Não seja um idiota comigo.

— Sou seu melhor amigo. Te protejo dos idiotas.

E eles se beijaram pela primeira vez. Na Rua dos Desesperados, em casa nenhuma. Depois, voltaram para o baile, entraram de mãos dadas dessa vez. E em todas as outras desde então.

 

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