Partida

Fluidos que se misturam,

Hormônios que se completam
De dentro para fora e de fora para dentro o nosso amor se manifesta
Nossos corpos dançam em sintonia até parados, quando nossas energias se misturam
E de perto vejo o calor entrar em mim e meu coração fica em festa.

Quando você não vem,
Sou só tristeza e desdém
Quando você volta tudo a minha volta se transforma
Se abre, se encanta e ganha a forma

A forma perfeita de te ter pra mim, e só pra mim
Te prender nos meus braços até que chegue o triste momento de sua partida
A escuridão que me invade até que volte pra mim

E eu finalmente volte a vida.

Isso é maldade do mundo, contra seu próprio ser
Te tirar dos meus braços e te entregar ao cruel mundo que te aguarda
A repressão naquilo que você ama fazer,
Fugindo da dor, é como quero e devo viver
E ninguém imagina a paz que seria continuar com você.

Não quero ter que ir embora,

Se acaso fores ficar,

Não quero que chegue a hora

Que você precisa me deixar.

 

Bloqueio

É tão incrível quanto como do nada escrevemos sem cessar. O bloqueio criativo. Não conseguimos escrever uma só palavra sem olhar para trás e ler tudo o que escrevemos. E não gostar de nada. Não se sentir confiante a continuar. Algo me bloqueia e gostaria muito que saísse do meu caminho. Para que fluísse o meu caminhar, essa angustia que fica aqui no meu peito e impede de chegar ao meu lugar. E entre tropeços e mais tropeços, sinto os versos se isolarem no interior do meu peito, no aconchego desse lugar. Agora mesmo, li três vezes antes de continuar, de olho em cada erro que não consegue me escapar. Com cortes e mais cortes, vejo meu texto acabar, as palavras sumirem e com elas o meu gosto de criar.

 

 

A um poeta – Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Nas gavetas do meu armário

O peito dói
O sorriso se dobra para baixo
Algo por dentro corrói
O coração apertado
Os olhos se enchem de lágrimas
Que por vezes se escondem num olhar disfarçado
E é assim que ficamos
Arrumando as gavetas do nosso passado
Encontrando pedaços de dor
Descobrindo e redescobrindo
A fragilidade da confiança e a dimensão do rancor.

É que não se fala sobre o rancor
Se acostumam a colocar a dor em um lugar escondido
E cobrem tudo com amor
Falar do perdão é mais bonito
Mesmo que seja confundido
Quando não perdoamos nem a nós mesmos
E o sentimento fica escondido

E esse é o gosto amargo
Do que guardamos no nosso armário
No espaço largo
Que não recebeu amor
Um gosto descrito por palavras mal ditas, choro engolido e o peso da dor.